domingo, 5 de fevereiro de 2012

Momentos especialmente eróticos...

Não havia sinais de espécies animais em decadência
Nada preenchia os espaços
Entre as flores algumas viçosas
Os caules erectos deixavam adivinhar as coxas
Onde o prazer se realizaria a dois
Foram momentos eloquentes daqueles que não se repetem
Depois as águas subiram impiedosas até cobrirem tudo de silêncio

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Tempo de reflexão (enquanto ouvia o Requiem de Mozart também inacabado)

Há um tempo em que tudo parece insólito inacabado
E no entanto a memória transborda
De acontecimentos
Alguns fictícios
Outros apenas interpretações que por serem pessoais
Não representam toda a verdade
Ou simplesmente a verdade
Pensa que se dedica à fotografia para esconder a angústia que o assola
Enquanto o tempo passa
O tempo passa?
E o que é o tempo?
Apenas reconhece o bater do coração
Um batimento anterior ao outro
Entre eles
Tempo
Apercebe-se que vive num sistema de eixos a três dimensões
Trajectórias
Curvas
Ondulações
Desejos orientadores
Satisfações que se desfazem como ondas junto à praia
Perdeu muito tempo a indagar sobre muitos acontecimentos que não tinham nenhuma importância para a sua vida
Apenas toda a gente perguntava pelos mesmos
Obcecadamente
Levou tempo a perceber que devia abandonar o que os outros diziam que pensavam
Não estava aqui para esclarecer nada de nada
Não tinha nenhuma missão
A certa altura da sua existência podia ter enlouquecido
Tentando encontrar um motivo
Para o acordar cada manhã
Sem se lembrar do que tinha feito no dia anterior
(antes de adormecer entenda-se)
Dialogava com sonhos por vezes aterradores
Afundava-se
Via-se como um barco de papel à deriva
Vento soprava de um recanto
Era conduzido sem destino conhecido
Como se o percurso fosse o destino
Nada está determinado
Tudo o que acontece pode não acontecer
E se não houver espectadores
Podes dizer que não aconteceu que não é mentira
Mentira é quando todos vêem
Se convenceres alguns assistentes de que aquilo não aconteceu
Não mentes
É tudo uma extravagante imaginação
E depois nada disso tem importância
O importante é respirar
Comer
E as outras coisas que nos dão prazer
Rostos que se contorcem como garantia de que existes
Amo-te
Eu também
Queria que fosses minha
Voa voa minha bela andorinha
Por estas e por outras é que resolve ouvir o Requiem de Mozart
Saibam que na minha não ingerência no mundo dos que acreditam em deus
É este o meu Requiem preferido
Só para vos levantar o moral
Afinal estarão pensando que outro dia
Outra noite
Será a vossa vez
Estamos todos (mas todos)
No mesmo barco de papel
(Agora percebo porque o barco de papel se insinua nas minhas manhãs desérticas)
Hoje
Olho um livro inacabado
E adormeço
Num instante
Num breve instante
Sei que o Requiem continuará a tocar
E a fazer-se ouvir nas ondas do éter
Adoro dormir com música em fundo
Alimento o meu outro eu
O eterno
E preparo-o para a triste realidade
De que também ele
O eterno
Afinal
É efémero como a flor

domingo, 4 de dezembro de 2011

Espelho

Espelho iluminado

Do negro dos teus cabelos

A custo o branco acinzentado que respiro

Se vislumbra

Ficaste plasmada no vídeo

Desta penumbra

O negro dos teus cabelos

Que me afunda

Em dias sem princípio e noites sem fim

E o amor de que falam

É assim?

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Saudade

Respiro essa mistura transparente
Que ficou dando guarida aos meus sonhos
Esqueço a morte de que não gostas de ouvir falar
Viajo entre a noite e o dia
(passou a noite nenhuma ave me encantou
Passou o dia nenhuma luz me siderou)
Saudade
E o que é a saudade?
O que grita com as lágrimas?
O que ri a bandeiras despregadas em espasmos de paixão?
A chuva e nós abrigados desta imensidão?
Jarras sem flores à tua espera?
Desejo do paraíso onde perdemos a razão?
Regresso a um ponto comum no universo?
Os dois de novo
(dá-me a tua mão andemos mais devagar quero saborear gota a gota este silêncio de encantar)
Sim
Esta forma de amar
Esta ideia de viver
Sem solidão

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Um desejo inesquecível de amar

Porque há um desejo inesquecível de amar

Mesmo quando o sol se esconde

E aos nossos olhos nada se insinua

Porque apenas vislumbramos sinais do Outono

Na cidade silenciosa e nas suas flores hesitantes

Terreiros de folhas amarelas e húmidas

Nas árvores o vermelho que engrandece o entardecer

Porque cai o dia

Com seus ruídos sonantes

E cresce em mim

O desejo de te reencontrar

Numa praia

De areia sonora

As ondas iam e vinham

Posavas para as fotografias que não querias

Mas havia no ar uma aragem de felicidade

Porque colada ao sol da antiga puberdade

Eras mais que um sonho

Nos meus braços

Existias

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Questões de loucura

Alguém levantou a questão da loucura

Assim como que se de quando em vez as coisas não fossem o que são

Tinha decidido não ceder a ninguém

Nem aos amigos

Tornas-te impossível

Ninguém gosta de ti

E seria bom que gostassem de um outro eu acomodado a um fim à vista?

E o que é bom?

E o que é gostar?

Ah! Estar comigo a trocar impressões ligeiras como o fumo dos cigarros?

Contar e recontar episódios engraçados?

(quem conta um conto acrescenta-lhe um ponto)

Ignorar que lá fora um mundo sofre?

É verdade que o campeonato este ano está mais equilibrado

E que a mãe do Ronaldo parece que não gosta da Irina

O que traz o rapaz triste e magoado

E como estão as famílias destroçadas no Iraque?

Não é de bom-tom pensar num país destes

Mesmo se todos nós a certa altura nascemos na Mesopotâmia

E as mulheres no Afeganistão?

Imolam-se pelo fogo

Nem aparecem nos jornais

(lembro sempre a minha querida afegã depois assassinada por bárbaros animais silenciosos)

Religiosos?

E todas as segundas e terceiras mulheres que no Egipto pertencem aos maridos endinheirados? E as primeiras?

E o Darfur?

Passou à história já não há pachorra para essas novidades

Uma menina morreu aos olhos de vários adultos que assistiram impávidos e serenos à sua agonia

Na China um estrangeiro deu por isso e foi notícia

Em todo o mundo também fecham os olhos às agonias famélicas de milhões de crianças

(os seios secos das mães no meio de enxames de moscas nas suas andanças)

Morrem homens escravos de lutas desiguais e ninguém quer saber porque são homens

(como se na sua beligerância inata a morte fosse apenas o reverso da medalha dos seus desejos impuros dizem alguns)

Os fotógrafos do acaso desviam as objectivas com pudor?

Nem isso

As objectivas não sofrem dessa indecisão

Essas imagens já não se vendem para os jornais e não cabem na televisão

(a comunicação está toda privatizada e só saberemos o que os donos quiserem e com a intensidade que for julgada conveniente pelas centrais do condicionamento mental)

O mundo está todo privatizado

Tudo o que pensamos que nos pertence está sendo gerido para o bem privado de alguém

(mais dia menos dia tudo passará para as mãos dos que não têm mãos para trabalhar)

Em breve não teremos bens comuns há que comprar um quintal e plantar batatas e couves e talvez apanhar um coelho ou lebre que passe por ali a ruminar

Ou morrer

(antes atropelado do que de fome sempre é mais moderno)

É verdade

Parece-me que estou no limiar de uma espécie de loucura

E a lucidez?

É perceber mais do que nos dizem?

É ver o que não se vê à vista desarmada?

É elaborar?

Sofres porque te deixaste invadir por ideais

(não sabias que todas essas ideias maravilhosas eram apenas extractos das literaturas mundiais)

Estás mas é deprimido

Vai ao médico

(garanto-te que a indústria farmacêutica tem remédio para isso tudo)

Pobre ente sisudo

Esquece

Vegeta

Finge que não estás só

E que a ressurreição é garantida

Num mundo melhor

Sempre melhor

Ou que existe paraíso como nos livros mais profícuos

Te prometem

Adormece

Sonha com um jardim suspenso

Com um viver espesso e denso

(só acordarás a meio da noite escura de breu e apenas ouvirás sons inusitados e ruídos de chuva caindo sobre os campos de trigo que os sem-abrigo têm casas de cartão estão muito bem protegidos os sem-abrigo)

Adia todos os pensamentos para depois do pequeno-almoço

(não esquecer o sumo de laranja que é uma rotina saudável)

E depois

Ocupa-te a pensar no que vais almoçar

(preferia sentar-me à mesa com tudo feito por amor)

Mas o que é o amor?

É agora que começa essa espécie de loucura

De que alguém falou

Os ventos onde habito não ajudam à procura

Mas é aí que meio alucinado

Penso que estou








terça-feira, 4 de outubro de 2011

Laranjeira em flor

Tinhas-me pedido uma flor

Que te beijasse o ventre

Que te acalmasse a dor

Como as flores o fazem sempre

Mas a flor que em mim nasceu

Tinha mais

Das pétalas saiu a borboleta

Que te enleou os seios

De princesa caçoleta

O caule erecto

Agora bem vivo e quente

Soltava gotas de orvalho

Pela noite dentro

E mesmo os espinhos

Que ferem sempre

Se deixaram arredondar

À tua frente

E ficaram tocando

Sem pudor

Recônditos suspiros de encantar

Era já o fim da madrugada

As estrelas recolhiam para sonhar

E a flor talvez cansada

Ensaiou uma última canção

Repousou na tua mão

E nesse recolher

De flor intensa

Murmurou ainda

Uma palavra densa

Que te adormeceu no teu torpor

Falando ou sonhando

Disse claramente

Bendita vida meu bendito amor