domingo, 25 de julho de 2010

A vida

A vida
É uma interrupção no silêncio abissal
É um relâmpago estrondoso
Na tempestade eterna
Multiversal
É uma vibração assíncrona
É uma mão, uma pena
A vida é o que se passa
Entre o microscópio e o telescópio
Inventados e esquecidos
Para sanidade dos mortais
A vida dissipa-se
Na inconsciência frequente das partículas
Fusão, confusão, separação
Dito isto
Amo as gotas de água
E bebo sofregamente
A que vem torrencial
Inundar a minha mão

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Eu também


Amo-te
Eu também
Penso em ti
Sempre que suspendo
O meu dia
Eu também
Ou acordo
Na minha noite
Eu também
Sempre que faço amor
Com alguém
Eu também
Como?
Assim já não está bem?
Eu também

domingo, 6 de junho de 2010

Este é o nosso deserto

Este é o nosso deserto
O mergulho imprevisível
Na absoluta consciência
Da morte ímpia e visível
Essa espécie de temor
Porque amanhã não há poesia
Ou porque é o último dia
Para respirar as palavras
De Pessoa ou de Sophia
Uns encontram um ser de amor
E desafiam a eternidade
A alguns basta saberem
Que a morte é só o decreto
Que garante a igualdade
Mas outros evocam a sorte
Nos despojos da existência
À procura do sentido
Do outro ser que lhes falta
Nenhum aviso é ouvido
Nas areias movediças
Do desejo que os confunde
Quando mergulham sofridos
Pensam nus mas vão vestidos
Da ganga da humanidade
Só lhes resta no final
Fugirem para as palavras
E esconderem a verdade

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Não me pertences


Não me pertences
Como o ninho
Não pertence aos pássaros
(O teu corpo
Mesmo louco
Não se entrega
Nem um pouco)
E no entanto
Quando respiro com um prazer
De morrer
Penso que tudo o que abraço
É meu
Que o mundo está a crescer
E confunde
O meu ser
Com o teu

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Procuro a beleza...

Procuro a beleza
Numa fronteira transparente
Onde viaja uma réstia de luz
Incandescente
Essa procura o que sente?
Saltam partículas coloridas
Que me atravessam a mente?
É nessa vibração
Percepção inconsciente
Que reside a sensação
Do belo
Em construção?
Procuro a beleza
Quero a exaltação
Do prazer consciente
Que deve rodear a monção
Cálida e dolente
Que assola o meu presente

quarta-feira, 12 de maio de 2010

ExisTenZ

Há o desespero
Que paralisa
Há a esperança
Que ameniza
Há a indiferença
Que adormece
Há a consciência
Que às vezes floresce
Há o palpitar do coração
O que estou a fazer
Em que penso
Há pensamento útil à acção
Outro que corre em atalhos
Sem chegar à minha mão
Há a viagem inevitável
Entre os êxtases
Há o Inverno e o Verão
Há a Primavera e o Outono
Como quem espera na estação
Há correntes fluidas
Naves inseguras
Precipícios desconhecidos
Filme de suspense
Pode ser de terror
Com sorte
Uma história de amor

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Loucura tomando conta do dia...

Acordei
Com uma espécie de loucura
Tomando conta do dia
Era a vida
Que mais uma vez
Me desiludia
Um homem passa a vida a conceber sonhos
De olhos bem abertos
Esperando que a luz que o toca
Seja garante de verdade
E afinal
É apenas uma claridade
Mitigada
Que paira dentro de si

Os valores e as definições
Estão sentados
Num canto da memória
Qual vulcão adormecido
Os seres imaginados
Circulam feitos deuses ou duendes
Comendo e bebendo
Com parcimónia e ao acaso
Daquela gamela de escória
Ou de ganga de ideais
Perfeitos ou malvados
Tomam conta da história
É aqui que começa
Esta espécie de loucura
Que acorda com o dia
Na nossa memória