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quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

A maquinação das palavras

Palavras

Que escrevo

À procura do texto

Com enlevo

Para que a música se faça ouvir

Ou que a ideia

Me dê outra vontade de sorrir

Espalho as palavras na folha de papel

(este exercício não é possível no automatismo estéril do computador)

Depois

Toco a reunir

Agrupo-as por sabor

Numa linearidade curva

Ou na triangulação

Do quadrado

O pentaedro pergunta-me

O que faço aqui

Neste plano confuso a que não pertenço?

Respondo-lhe

Afagando os seus limites

As linhas são só

Para que tu existas

São apenas um material de construção

As vidas sim

São feitas no espaço

Lá onde dizem que o Infinito existe

Mesmo se sonhas que é na tua imaginação

Queria tocar-te por dentro

E todo o meu esforço é inglório

Penso com denodo nesse limite

Que só um monstro pode atingir

Quando caio em mim

Volto a escrever as palavras

E peço-lhes

Que se movam para eu sentir

Que se agarram umas às outras

Aqui costumo sorrir

E voltar ao princípio

Da mesma maquinação

sábado, 6 de novembro de 2010

Separei-me do momento (pensando em Fernando Pessoa)

Separei-me do momento
Da sequência do que aconteceu
Do que teria feito
A memória de um dia habitual
Preferi a escrita
(a ideia que se imprime)
A reflexão
(a mente que se redime)
É então indiferente
Se o sol brilhou
Ou se choveu a cântaros no quintal
Ou se a meio da tarde
Me procuraste para fazer amor
Sequiosa e fatal
O que passou fora de mim
Neste dia não fui eu
Enquanto revolvia o já vivido
Consta que anoiteceu
Não lamento o dia perdido
Foi apenas um respirar inconsciente
E por isso decerto mais sentido
Que um outro qualquer
Separei-me do momento
Da sequência do que aconteceu
Não há mais nada a dizer
Agora já me sinto
De regresso
Ao meu antigo Eu
Mergulhado de novo no absinto
Que nunca conseguiu
Perceber em sequência
Como em cada dia
Se viveu

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

E no entanto vivemos...

Escreves
O que te ditam sonhos multicolores
Publicas
Por canais azuis
Calmos ou trepidantes
Ou simplesmente
Em folhas de papel como dantes
Ninguém te conhece
(os que se lembram de ti não sabem quanto mudaste
nem te reconheceriam em nenhuma circunstância)
Um dia
Deixas de escrever
(Essa forma de respirar sempre ofegante)
Quantos seres perguntarão por ti?
Alguma célula fora do teu corpo
Se agitará de per si?
Não nascemos para sermos reconhecidos
Nem aos nossos próprios olhos
E no entanto vivemos
Oh! Se vivemos...

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Contem comigo mais tarde em Salém...

Escondo as palavras
De mim mesmo
Não as quero ditas
Usadas a esmo
Humilhando as verdades
Antigas e evidentes
Bato com os nós dos dedos
Nos momentos fechados
Que vivi impunemente
Escondo-me de mim mesmo
Como de um monstro
Olho discretamente
Para a lista dos gestos permitidos
Decreto que os instrumentos que falam
Sejam enclausurados
E por isso deixo as caixas
Com os seus cadeados
Sem investigar
Os números marcados
As horas circulam
Sem se somar
à minha volta
As ternuras perguntam
Pelos sinais
Os desejos são apenas
Gestos de outro tempo
Que não volta mais
Escondo-me
E comigo vão os demais
Ao longe porém
Ruídos tétricos e maquinais
Não vejo ninguém
Nem quero ficar só
Contem comigo
Mais tarde
Em Salém

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Loucura tomando conta do dia...

Acordei
Com uma espécie de loucura
Tomando conta do dia
Era a vida
Que mais uma vez
Me desiludia
Um homem passa a vida a conceber sonhos
De olhos bem abertos
Esperando que a luz que o toca
Seja garante de verdade
E afinal
É apenas uma claridade
Mitigada
Que paira dentro de si

Os valores e as definições
Estão sentados
Num canto da memória
Qual vulcão adormecido
Os seres imaginados
Circulam feitos deuses ou duendes
Comendo e bebendo
Com parcimónia e ao acaso
Daquela gamela de escória
Ou de ganga de ideais
Perfeitos ou malvados
Tomam conta da história
É aqui que começa
Esta espécie de loucura
Que acorda com o dia
Na nossa memória

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Posso amar como Bécaud

Posso amar como Bécaud uma jovem russa
Numa praça vermelha que regurgite de bolcheviques
Retirados entretanto de circulação

Posso cantar como Brel uma indígena muda
De ilhas longínquas e ignorar os seus caciques
Ou os reis bruxos desse Butão

Posso beijar os campos onde os guetos proliferam
E não sentir o odor do sangue
Nem a maldição ou a maldade humana

Posso vender flores ao desbarato
Para que a todos calhe o seu quinhão
De beleza ou da simples ilusão que jana

Posso reiterar esforços e escamotear contrastes
Imaginar que a vida procura o equilíbrio
Quando já sei que este nunca será atingido

Posso dizer o que penso quando não sonho
Recitar as desilusões que a moral me incutiu
Imaginando que o Homem é tão só
Um um ser fruste e fugidio

Posso tudo o que quiser de peito aberto
Mas chegado o momento estou certo
As páginas voarão para um lugar desconhecido
O céu ficará sem cor
E o pensamento e a dor
Perderão para todo o sempre
O sentido

quarta-feira, 31 de março de 2010

Momentos sem espessura

Momentos sem espessura
Como um balão
Que se perde em altura
Existe e não se vê?
Viver é o quê?
Sinto no coração a ternura
E o batimento
Que ao momento me segura
Resume a consciência do vento
Que passa
O que é o tempo?
Corrente da consciência
Percepções que fixo em sequência?
Com os olhos fechados
Os sons adormecem os ânimos
Memórias condescendentes
Vivo uma vida imprecisa
Vazia
de antecedentes

domingo, 14 de março de 2010

A imperdoável canção

O erotismo
É quando o sexo escreve poemas
Quando o êxtase se confunde
Com enigmáticos fonemas
Ciciados ao ouvido
Do nosso encantamento
Por pouco não distinguimos
O vento nas dunas
E quase ignoramos
O areal sofrido
Onde espraiamos
O desejo agora incontido
Dizes palavras que não entendo
Falas como um anjo
Perdida no momento
Sem tempo
Este torpor nunca mais acaba?
Estamos por fim na eternidade?
Que me importa acabar assim
Todas as outras mortes
Seriam intragáveis
Mas esta
Em pleno festim
Dizendo palavras incompreensíveis
Tão absurdas como as bocas vermelhas
Que nos beijavam
Sem nos conhecer
Só posso agradecer
Ao acaso
Em que não acredito
Ai de mim
Queria despertar
E regressar
Ao erotismo
Poema sem palavras
Gesto sem movimentos
Momento supremo
Só interrompido pela guilhotina
Que corta o mundo em dois
Para nos separar
Suspendendo a vida
Em honra da deusa antiga
Será preciso vingar a felicidade?
E o regresso é impossível
Depois de dobrar este cabo?
Êxtase aziago
Pulsão enganadora
Pensamos estar a coberto de um fim
Confundidos com as nuvens
De onde não podemos cair
E afinal é tudo ilusão
E não sabemos como sair
É então que percebemos
Que é só
Mais um dia que termina
Na nossa imaginação
E Eros que congemina
E encerra
Esta imperdoável canção

sexta-feira, 12 de março de 2010

Consciência do Ser

Vejo
Na matéria de que és feita
Germinar a flor de um corpo
Tomas o partido da alma
Iludes a realidade
Convocas a forma ideal
Para que à tua volta
Só vislumbrem fugaz a verdade

Penso
Na ilusão de que és feita
Mergulho num mundo absorto
Onde só a dor me acalma
E a ideia estranha de estar morto
Apaga a emoção e a chama
Para que à minha volta
Só respirem sagaz a verdade

Faço
Na vontade de que és feita
Vacilar a potência ideal
E num mundo absurdo e fatal
Incendeio uma réstia de esperança
Resisto à emergência do mal
Para que na próxima revolução
Só percebam vivaz a verdade

segunda-feira, 8 de março de 2010

Solvência do Ser


Vários pássaros
Debicavam o fim do dia
Num ar de catástrofe eminente
Afinal era só
O momento presente
Que se dissolvia
E a luz do poente
Que se reduzia
A uma espécie
De pó

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Persistir


Persistir
Mesmo se a oração
Já não inspira
Frustrante
E o meu ser esvoaça
Contra um céu iníquo
Vazio até da águia errante

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Tentativas do Ser

Quem tem cabeças abertas
Sem autorização de ninguém
Afirma que apesar de tudo
E da "grande confusão"
O homem é um ser com sorte
Consegue só percorrer
Sem destino e às vezes mudo
Um caminho até morrer
Dando-se ares de eleito
Aparências de perfeito
Enganando até o deus
Que inventou para se explicar
Da incoerência do Ser
Dos longos disfarces do Ter
Vive cansado do temor
De mundos que nunca existiram
Vive em profundo terror
Imagens que o confundiram
Afinal não vale a pena
Realçar o sofrimento
Neste breve súbito instante
Naquele impreciso momento
Tudo se dilui na confusão
E a chamada Existência
É apenas disfunção
(Reflexão sobre afirmações de Manuel Damásio que relatava as suas recentes conclusões sobre "o que vai no cérebro do homem")

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Declaração em nome dos mortais

Depois de algumas investigações

Nada parecidas com as policiais

Estou apto a fazer declarações

Que as faço em nome dos mortais

E por isso sem pejo nem hesitações

A vida é o sopro que agita o animal

Para que um ser esteja vivo

Isto é que tenha veemência e sal

É preciso que o coração bata e se repita

E que a repetição se faça para o bem e para o mal

Portanto não é no bater mecânico do coração

Que se define se tudo está conforme

Viver então começa por ser fome

Um grito de chamamento que ecoa

Pelas sombras

Ou até pelos corredores de um hospital

Depois vem da palpitação a consciência

E do bem e do mal a apetência

A fome de comida tudo justifica

Como aos animais

Mas o homem que eu concebo

Quer sempre mais

Na cabeça está alojado o infinito

Que às vezes se liberta sem saber

Gerando um frémito inaudito

De desejo de fazer e de prazer

E o dono destas ondas bem reais

Pode por vezes ganhar a liberdade

E sem controlo a mente não se esgota

Explode em grandezas sem cidade

E dum pequeno barco faz a frota

Com que vai querer arribar ao porto alto

Sempre mais alto que o porto que ontem foi

Como se o homem qual deus incauto

Não tivesse limites ou não os conhecesse

E portanto no infinito projectado

Só pode acabar ensimesmado

A dizer talvez num canto do universo

"Este desejo que vivo e que almejo

Não está finalmente ao meu alcance

Não quero da vida este relance

Nem viver como o comum dos mortais"

Partir é então o fatídico desígnio

Talvez na esperança que casa com a ignorância

De na poeira onde não reconhece identidade

Ter enfim garantida a eternidade

Como parar então esta amargura

Este anseio esta forma esta demissão

Porque todas as palavras conseguidas

Que se profiram com amabilidade ou com secura

Podem não ter a força e o lastro suficiente

Basta porém na mente

Manter-se impunemente

Esse desejo vital de fazer quase inconsciente

E nada mesmo nada

Conseguirá fazer-lhe frente

Talvez também

E é esse o meu anseio

Descendo da poesia

Caldeado com o prazer da maresia

Um braço caído sem força momentaneamente

Possa remeter em causa esta agonia

Sonhar de novo como se vivia antigamente

Quando a vida corria e se olhava cada presente

Como o bom que a vida conseguia

E o braço já não dormente se mova e diga

Que quer ser de novo da acção o leme

E da vida o símbolo que nunca treme

Aqui o momento geme

E a árvore se agita

E o homem renasce

Na sua bela desdita