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terça-feira, 24 de setembro de 2013

Regresso a Ouro Preto


“Bela e negra como a noite pura
A negra branca a minha mão segura
Não sei de nós nesta noite escura
No regaço uma flor transpira gotas de espuma
A boca é boa e branca como a noite pura”


(Ouro Preto, 13/08/11)

sexta-feira, 9 de março de 2012

Tocar a realidade

Sobre o desejo de “tocar a realidade” e a impossibilidade que antevejo

(enquanto decorria a conversa de Alexandra Lucas Coelho com Gonçalo M. Tavares na apresentação do livro “e a noite roda” - Bar da Barraca, 2012/03/07)


A realidade percebida aninha-se e adormece com os meus sentidos
Vai despertar quando menos for esperada
O que disser nesse momento
Será a verdade relatada
Oh! Mundo subjetivo!
Absoluta incapacidade de saber como existe
Teria bastado que um vulto passasse correndo
Que uma luz vinda de uma esquina
Que um balão festivo fluísse na sua bolina
Que umas mãos distraindo as minhas
Que uma quebra de energia fabricasse um apagão
Que um sentimento de perigo me alertasse
Que o amor estivesse ali ou não
Para que o momento se filtrasse
Para que eu já não soubesse do que falava
Para que não percebesse onde estava
Menos ainda o que naquele momento me faltava…

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Pensas

Pensas
E o que é pensar?
Pensar é a maneira de se chegar a uma intermédia conclusão
Colocas palavras
Sobre um qualquer fogo
Atiças com tesão
E esperas que se alinhem e te digam
De sua justiça
Ou talvez não

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Nós não somos o centro de nada

Nós não somos o centro de nada
Vivemos em sítios esconsos
Onde suspiramos para sermos ouvidos
Por aqueles que nos amam
Estamos na margem de um grande rio
Que corre aos nossos olhos
Vislumbramos destroços e escolhos
E nada podemos fazer
Deixamos correr
A água
De onde nasce a bruta energia
E a espuma
É afinal
O símbolo parco
Do nosso dia

O segredo


Em cada dia teremos que olhar a lua
Em cada noite serás minha e tua
Os poros do dia abertos
Para a nossa natureza
Olhos nos olhos em cada hora
Modelando a nossa certeza
Vais ser o vulto de cada anoitecer
Paciente
A certeza do amor
Para sempre
Vou ser uma estrela na manhã
Presente
A certeza de te ter
Até morrer
Serei eu e teu
Serás minha e tu
Segredo de um equilíbrio
Perene
Viveremos assim
A última oportunidade
Em cada gene

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Quero ser amotinado

Quero ser amotinado
Nesta viagem terminal
Quero ser o timoneiro
E conduzir-me até Baal
Quero ser de peito aberto
Aquele que não vê o mal
Quero ser o gesto certo
Que enfrente o momento fatal
Não imploro nem peço
Piedade amor ou processo
Mergulharei naquela sorte
Como um valente ante a morte
Que sabe estar condenado
A uma ida sem regresso
Quero ser amotinado
Nesta viagem terminal
Quero ser o timoneiro
Deste barco deste veleiro
Que se despedace em Baal
E não me levem a mal

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Cinema Quarteto


I

Rastos de pessoas que vivi
Ao cair dos dias
Cinema em fim de tarde, já percebeste?
Ou então se querias
Sexo ao princípio da noite
Até as aparências nos chamarem
Também se compreende, não é?
Vou ao cinema como se o tempo não tivesse passado
Dou comigo a conversar sozinho desta vez
Mas distingo veladamente os teus passos
Diferentes dos meus e portanto
São os teus passos
Que os davas
Tão discretamente como se sobrevoasses
Os acontecimentos e às vezes
Até a própria vida - se morresses...

II

Se morresses não gostaria de saber
Nem que soubesses de mim por esse acaso
Prefiro ficar à espera de notícias todos os dez anos
Os meninos já estarão crescidos
Até se podem encontrar como se nada fosse
Sem saberem que pelo direito de um amor paixão
Poderiam ser um só, pois não
Se te encontrasse
Seria para recitar um verso amargo
E beber-te de um só trago
À lúcida memória que aqui jaz
Ainda a tua língua palpitante
Sabor que sempre volta
Quando os cabelos soltos se espraiam na areia do Guincho
Onde nunca fomos
O nosso género era mais as matas das Maçãs
Tardes pagãs – depois quase morri

III
Depois quase morri às mãos das mentiras
Engendradas com impaciência
E a natureza imberbe que tudo leva à sua frente
Aposto que estás diferente
E eu bem obrigado
Abraçando embora outros corpos
Onde tu não vives
Só uma vez te espalhaste por uma cama
Feita incenso ou aloé vera
E me deixaste exangue
Suspenso de novo à tua espera

IV

A história acaba aqui
Enquanto aquela veia ainda vibra
Era bonita essa veia
Que beijavas repetidamente

V

Oh! está diferente
Já não pulsa como antigamente...

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Trazes contigo a evidência e a impostura...


Trazes contigo
A evidência e a impostura
De objectos e de fotografias
E na memória
Os embustes e as insinuações
De como passaram os dias
Ou morreram as pessoas
E se foram as paixões
Objectos que sobreviveram
A tantas desilusões
Trazes contigo milhares de recortes
De outras vidas que sonhaste viver
Imagens mergulhadas na tua mente
Inevitavelmente limitada
Onde queres que flua todo o universo
Só isso te deixa saciada
A tua existência porém
Pode enlouquecer num momento fugaz
E só a insistência prevalecer
De fazeres amor com qualquer sexo
Procurando nesse espasmo
O nexo
Para o nascer e para o morrer
E no orgasmo
A improvável coerência do ser

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Sweet Life



I
Vento que sopra talvez do mar
Ou de uma dobra da Natureza onde se esconde a felicidade
Calor ameno que chega para dar a sensação vital de ser
Memórias, memórias de aqui estar
Ou talvez em outro lugar onde nunca esteve
Mas onde sonhou amar
Ainda o amor como liana que o prende à vida
Mesmo quando não está presente ou apenas em esboço
Como uma imagem distante no fundo da página
Onde se escreve com as duas mãos
A direita que acaricia e a esquerda que segura
O sexo que volteia à procura do amplexo
Que amplifica o momento e o ser
Voraz ainda sempre
Como comandado geneticamente

II
Vento que sopra do mar
Talvez do mar
Felicidade que rodopia por um momento
Antes de tudo acalmar
E o banal de sempre voltar

III
Rodopia, rodopia, rodopia
Por um momento
Que vale pela eternidade
A que não pertence
É bom ser

IV
Vento que sopra do mar eterno
Momento que o envolve
Sereno

V
Grande como um deus
Vence a ambiguidade
O momento é seu
É feliz

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Um chá como quem adormece


Deste-me um chá e disseste
Adormece meu querido
Tens agora
Todo o tempo do mundo
Para descansar
Dessa incerteza de viver
Vou aqui ficar por ti
A respirar até que o pó se desvaneça
E perca a forma impúdica e quase demente
Que em ti soou

Meu amor ouvi dizer ainda
Como quem morre
Ao anoitecer
No chá duas folhas suspensas
Dispersas na impossibilidade de se encontrarem
Como nós quando vivíamos
A amargura de nada dizer
Sem tempo para declarações
Só nos gestos por vezes um lampejo
Do nosso desejo

É por isso que aqui fico ainda
Arrefecendo com o chá
Até que um último murmúrio em forma de fumo
Me deixe para se juntar à cremação
Que me dissipe totalmente
Ou melhor
Me leve para aquela franja do Universo
Onde possa viver eternamente
Amálgama de elementos
Que me acolherão
Como CO2, Mg ou H2O
Vá lá saber como se desenhou o paraíso
Sem pensamentos
Sem tormentos
Pó H2O Só

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

No rosto da mulher...


No rosto da mulher
Há ternura, fuga e mãe
A mulher é diferente
Quase sempre
Se o meu coração
Bate ao ritmo da mulher
Sente-se mais feliz
Ela seduz o Universo
E até ao anoitecer
Sinto-me diverso
Depois sonho na fusão
Num único ser
Numa amálgama de querer
Num sólido momento transparente
Onde para lá dos seus olhos
Brindamos em êxtase
Eternamente

Máscaras

Máscaras
Há quem garanta
Com sua certeza
Que as verdadeiras
As mais estranhas
Circulam em Veneza
Nas asas de mistérios inauditos
Representando
Não a vida
E as suas facetas
Mas a morte
E a sua antecipação
Dolorosa
Momentos angustiantes
Silêncios de medo
Tudo o que não se vê
E se pode imaginar
De preferência
Com a mente louca
E na mão talvez
Se for Carnaval
Uma inoportuna roca

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Morir y Vivir
(Pensando en Federico García Lorca)

Que piernas
Tan buenas
Que tienes ay
Quería tocarles
Y morir así
Que labios
Tan rojos
Que tienes ay
Quería besarlas
Y morir así
Que pechos
Tan bonitos
Que tienes ay
Quería comerlos
Y morir así
Que ideas
Tan fuertes
Que dices ay
Quería amarlas
Y vivir así

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Árvore visão eterna céu incluido


Árvore
Frondosa
Visão eterna
Céu incluído
Não se ouve um ruído
Só musicas estranhas
A que não pertencem
Os sons habituais
Da tua respiração
O murmúrio da tua voz
Longínquo
Fala no momento atroz
Em que disseste
Já não sou a mesma pessoa
Que amaste
Agora
Agonizo
No vazio dos teus braços
Há escuridão
Nos nossos espaços
Nada faz sentido
Árvore
Loucura
Visão fraterna
Céu incluído
Só ramos secos
Nem uma folha esquecida
Vazia como os braços
Que te abraçavam
Mas não te retinham
Agora
As gotas de uma chuva
Imprevista
Gelam os últimos desejos
De que me lembro
A natureza
Na sua contínua sobriedade
Confirma a certeza
Da perda da alegria
O momento esquece
O futuro
O amor é impuro
Adeus árvore

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Esquecimento, Esperança, Sonho

I- O Esquecimento

Viajo para longe
Sem gente
E nesse mundo vazio
Dolente
Esqueço o passado
Intensifico o presente
Estou numa praia como esta
Onde repousam dias antigos
Ao sol
Quero esquecer-me ao sol
Do mundo agora mudo
E numa praia como esta
Frente a um lago incandescente
Rolar como um seixo perfeito
Como uma figura embriagada
Talvez pela maresia
E na luz filtrada
Adormecer até ao fim do dia

II - A esperança

Ao anoitecer
Esperarei desesperadamente
Por um rosto alado
Que regresse do futuro
E se espalhe pelo mar
Onde brilhará então
Uma lua de encantar
E numa praia como esta
Poderei acreditar na giesta
No pulsar de um coração
No emergir de uma mão
Que me procure
E me segure
De novo à vida
Como uma vitória do amor
Sobre o estertor

III – O sonho

Numa praia como esta
Esqueço o passado
Intensifico o presente
E sonho
Que povoo o amanhecer
Com nova gente

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

"L´amour fou"


Lembras-te daquela última tarde
Silenciámos a vida à nossa volta
Tínhamos saudades um do outro
Marcamos um encontro
No vendaval mais próximo
Chegamos os dois mais cedo
Impelidos por um vento
Indomável e quase tóxico
Despimo-nos à velocidade do desejo
Como se não nos conhecêssemos
Ou fosse um primeiro ensejo
Gestos perturbados e escolhos
Esquecidos nos ombros das portas
Nas ancas redondas das cadeiras
Nos seios insolentes
Dos mármores e das madeiras
Detalhes rasgados por falta de tempo
Ou pela tentação que se apoderou de nós
Como se não estivéssemos sós
O murmúrio dos beijos
Os gritos do bel-prazer
O ritmo e a voracidade
O desejo de quem tem
Pela primeira vez à sua frente
O maior momento do mundo
Ou se despede da vida
Horas a viver sem fundo
Saímos para adormecer
Acordámos ao anoitecer
Para festejar ainda
A vitória insuperável
De estarmos de novo juntos
E de a nada obedecer

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Voltamos ao deserto...

Três dias
E outras noites
Voltamos ao deserto à procura
Do que resta de nós
Do que nunca foi trocado
Ou reconhecido
Nada fazia sentido
Só memórias escondidas
Desejos enclausurados
Vibrações inaudíveis
Mesmo aos ouvidos das emoções vividas
Tudo o que até hoje não dissemos
Que podia ter sido escutado
Proclamado soçobrado
Ou recomeçado
De comum acordo
Ou tácito enlevo
Nem te dei
Nem levo
Três dias
E outras noites
Sentimo-nos depois perdidos
À espera ainda do reencontro
De palavras desconhecidas
Talvez pronunciadas
Pelas nossas bocas
Em momentos diferentes
Não sincronizados
Rapidamente apagados
Para que não constassem
Nunca mais
Três dias
E outras noites
Perdidas a repetir o que já sabíamos
Um do outro
Mesmo o escorpião absorto
Não mexeu um grão
De areia
O momento foi assim
Declarado
Praticamente morto

sábado, 4 de setembro de 2010

Que suavidade mórbida

Que suavidade mórbida
Quando amanhece
Neste murmúrio silencioso
Do ano a dealbar
Não há palavras
Para te convocar
Nem espero que fales
Em teus contornos imaginados
Amanhã
Sei que bastará um olhar
Para te reencontrar
Mais tarde
Viverei o que pensas
Agora
Não fales por favor
Assim poderei acordar
Na visão obsessiva da vida
Onde impera zeloso o amor

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Isabel, nos anos oitenta...


I
Isabel eras um mito
Vindo do outro lado da vida
Pacote de Winston na mão
Olhar distante
Ou desinteresse
A tua mão era macia

II
Isabel eras o silêncio
Objecto sexual “perhaps”
Passiva como um pássaro apaixonado
O sorriso esbatia-se
Contra as luzes apagadas
Luzes acesas, Luzes apagadas
Esbatia-se
O teu braço era macio

III
Isabel eras uma criança
Os dedos roídos pela impaciência
Saiote branco e folhos
E rendas
A tua vida
Um pouco da tua vida
Eras um Zé
Um amor calculado
Ou desinteressado
Eras o quê
A tua boca era romã
O teu sorriso triste
Eras o mundo à nossa volta

IV
Isabel eras convencional
A tua casa ainda não estava pronta
Móveis melhores, móveis novos
Amanhã tens que ir buscar a tua filha
Eras mãe, eras esposa
O fim
Eras o fim da noite
Pedias desculpa
Nem sei porquê

V
Isabel eras um whisky
Com duas pedras de gelo
Os Beatles
O teu presente
O teu futuro
Um dia deixarás de ser bela
Sê formiga, sou cigarra
Eras a rainha
Com um sorriso triste
Devassada
Eras uma rainha
Quem te conhece
Jura que o fazes muito bem
Eras um impasse
Uma incerteza
Um objecto
A tua vida parecia ser
O prazer dos outros
Por amor
É o amor que te interessa
O amor ou o sexo?
Não sabes do que falas
Tens praticado em demasia
Nem uma só vez
Falaste da cor do mar
Ou do ritmo das ondas

VI
Isabel eras o erotismo
Os seios recortando-se
No azul vermelho da sala
Enchias a noite de sonhos
Sem tempo
Teus lábios eram de facto romãs
Teu corpo era de facto macio
Onde te colava os lábios
Nasciam flores
Quando te fitava os olhos
Brilhavam estrelas
Quando te apertava os seios
Corriam rios
Percorria-te com os olhos cerrados
Como se fosses
O meu caminho habitual

VII
Isabel, nos anos oitenta
Era normal

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Nas margens frescas do Outono



O Verão grita sem cessar
Ecoando pelos corredores
Azuis e silenciosos
Da minha tristeza camuflada
Esgravato com denodo os odores
Dos momentos quase felizes
De que me esquecera
Cavalgo nos sonhos inquietos
Antes de cair desamparado na verdade
Passara uma década boçal e imperfeita
Debaixo de um céu infinito
Que ignora a dura realidade
Inicío então aquela sede mortífera
No último deserto onde o novo
Já não aflora na natureza prolífera
E no entanto
Os ventos cálidos do Verão
Pareciam apaziguadores das doenças da vida
Morava agora com vistas para o mar
Mesmo se só vislumbrava a planície verdejante
De um Alentejo alto e de abrasar
Podia baixar as gelosias ao nascer do sol
E acorrer horas mais tarde
Ao convite escaldante do entardecer
Tinha chegado a imaginar um paraíso terminal
Onde os abraços me defendessem do mal
E os beijos espaçados mas sinceros
Ecoassem como pássaros
Nas noites de gestos impropérios
Mas a palavra da verdade era estridente
Não perdoava na sua firmeza prepotente
Percebo que já não terei uma lua de papel
Nem das abelhas o seu glorioso mel
O Verão grita sem cessar
É preciso resistir
Até uma rã coaxar
Nas margens frescas do Outono
Para então recomeçar
Uma nova esperança sem dono