terça-feira, 17 de janeiro de 2012
Tempo de reflexão (enquanto ouvia o Requiem de Mozart também inacabado)
domingo, 4 de dezembro de 2011
Espelho
segunda-feira, 21 de novembro de 2011
Saudade
Que ficou dando guarida aos meus sonhos
Esqueço a morte de que não gostas de ouvir falar
Viajo entre a noite e o dia
(passou a noite nenhuma ave me encantou
Passou o dia nenhuma luz me siderou)
Saudade
E o que é a saudade?
O que grita com as lágrimas?
O que ri a bandeiras despregadas em espasmos de paixão?
A chuva e nós abrigados desta imensidão?
Jarras sem flores à tua espera?
Desejo do paraíso onde perdemos a razão?
Regresso a um ponto comum no universo?
Os dois de novo
(dá-me a tua mão andemos mais devagar quero saborear gota a gota este silêncio de encantar)
Sim
Esta forma de amar
Esta ideia de viver
Sem solidão
sexta-feira, 18 de novembro de 2011
Um desejo inesquecível de amar
Porque há um desejo inesquecível de amar
Mesmo quando o sol se esconde
E aos nossos olhos nada se insinua
Porque apenas vislumbramos sinais do Outono
Na cidade silenciosa e nas suas flores hesitantes
Terreiros de folhas amarelas e húmidas
Nas árvores o vermelho que engrandece o entardecer
Porque cai o dia
Com seus ruídos sonantes
E cresce em mim
O desejo de te reencontrar
Numa praia
De areia sonora
As ondas iam e vinham
Posavas para as fotografias que não querias
Mas havia no ar uma aragem de felicidade
Porque colada ao sol da antiga puberdade
Eras mais que um sonho
Nos meus braços
Existias
quarta-feira, 26 de outubro de 2011
Questões de loucura
Alguém levantou a questão da loucura
Assim como que se de quando em vez as coisas não fossem o que são
Tinha decidido não ceder a ninguém
Nem aos amigos
Tornas-te impossível
Ninguém gosta de ti
E seria bom que gostassem de um outro eu acomodado a um fim à vista?
E o que é bom?
E o que é gostar?
Ah! Estar comigo a trocar impressões ligeiras como o fumo dos cigarros?
Contar e recontar episódios engraçados?
(quem conta um conto acrescenta-lhe um ponto)
Ignorar que lá fora um mundo sofre?
É verdade que o campeonato este ano está mais equilibrado
E que a mãe do Ronaldo parece que não gosta da Irina
O que traz o rapaz triste e magoado
E como estão as famílias destroçadas no Iraque?
Não é de bom-tom pensar num país destes
Mesmo se todos nós a certa altura nascemos na Mesopotâmia
E as mulheres no Afeganistão?
Imolam-se pelo fogo
Nem aparecem nos jornais
(lembro sempre a minha querida afegã depois assassinada por bárbaros animais silenciosos)
Religiosos?
E todas as segundas e terceiras mulheres que no Egipto pertencem aos maridos endinheirados? E as primeiras?
E o Darfur?
Passou à história já não há pachorra para essas novidades
Uma menina morreu aos olhos de vários adultos que assistiram impávidos e serenos à sua agonia
Na China um estrangeiro deu por isso e foi notícia
Em todo o mundo também fecham os olhos às agonias famélicas de milhões de crianças
(os seios secos das mães no meio de enxames de moscas nas suas andanças)
Morrem homens escravos de lutas desiguais e ninguém quer saber porque são homens
(como se na sua beligerância inata a morte fosse apenas o reverso da medalha dos seus desejos impuros dizem alguns)
Os fotógrafos do acaso desviam as objectivas com pudor?
Nem isso
As objectivas não sofrem dessa indecisão
Essas imagens já não se vendem para os jornais e não cabem na televisão
(a comunicação está toda privatizada e só saberemos o que os donos quiserem e com a intensidade que for julgada conveniente pelas centrais do condicionamento mental)
O mundo está todo privatizado
Tudo o que pensamos que nos pertence está sendo gerido para o bem privado de alguém
(mais dia menos dia tudo passará para as mãos dos que não têm mãos para trabalhar)
Em breve não teremos bens comuns há que comprar um quintal e plantar batatas e couves e talvez apanhar um coelho ou lebre que passe por ali a ruminar
Ou morrer
(antes atropelado do que de fome sempre é mais moderno)
É verdade
Parece-me que estou no limiar de uma espécie de loucura
E a lucidez?
É perceber mais do que nos dizem?
É ver o que não se vê à vista desarmada?
É elaborar?
Sofres porque te deixaste invadir por ideais
(não sabias que todas essas ideias maravilhosas eram apenas extractos das literaturas mundiais)
Estás mas é deprimido
Vai ao médico
(garanto-te que a indústria farmacêutica tem remédio para isso tudo)
Pobre ente sisudo
Esquece
Vegeta
Finge que não estás só
E que a ressurreição é garantida
Num mundo melhor
Sempre melhor
Ou que existe paraíso como nos livros mais profícuos
Te prometem
Adormece
Sonha com um jardim suspenso
Com um viver espesso e denso
(só acordarás a meio da noite escura de breu e apenas ouvirás sons inusitados e ruídos de chuva caindo sobre os campos de trigo que os sem-abrigo têm casas de cartão estão muito bem protegidos os sem-abrigo)
Adia todos os pensamentos para depois do pequeno-almoço
(não esquecer o sumo de laranja que é uma rotina saudável)
E depois
Ocupa-te a pensar no que vais almoçar
(preferia sentar-me à mesa com tudo feito por amor)
Mas o que é o amor?
É agora que começa essa espécie de loucura
De que alguém falou
Os ventos onde habito não ajudam à procura
Mas é aí que meio alucinado
Penso que estou
terça-feira, 4 de outubro de 2011
Laranjeira em flor
Tinhas-me pedido uma flor
Que te beijasse o ventre
Que te acalmasse a dor
Como as flores o fazem sempre
Mas a flor que em mim nasceu
Tinha mais
Das pétalas saiu a borboleta
Que te enleou os seios
De princesa caçoleta
O caule erecto
Agora bem vivo e quente
Soltava gotas de orvalho
Pela noite dentro
E mesmo os espinhos
Que ferem sempre
Se deixaram arredondar
À tua frente
E ficaram tocando
Sem pudor
Recônditos suspiros de encantar
Era já o fim da madrugada
As estrelas recolhiam para sonhar
E a flor talvez cansada
Ensaiou uma última canção
Repousou na tua mão
E nesse recolher
De flor intensa
Murmurou ainda
Uma palavra densa
Que te adormeceu no teu torpor
Falando ou sonhando
Disse claramente
Bendita vida meu bendito amor
Pensas
E o que é pensar?
Pensar é a maneira de se chegar a uma intermédia conclusão
Colocas palavras
Sobre um qualquer fogo
Atiças com tesão
E esperas que se alinhem e te digam
De sua justiça
Ou talvez não