quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Nas margens frescas do Outono



O Verão grita sem cessar
Ecoando pelos corredores
Azuis e silenciosos
Da minha tristeza camuflada
Esgravato com denodo os odores
Dos momentos quase felizes
De que me esquecera
Cavalgo nos sonhos inquietos
Antes de cair desamparado na verdade
Passara uma década boçal e imperfeita
Debaixo de um céu infinito
Que ignora a dura realidade
Inicío então aquela sede mortífera
No último deserto onde o novo
Já não aflora na natureza prolífera
E no entanto
Os ventos cálidos do Verão
Pareciam apaziguadores das doenças da vida
Morava agora com vistas para o mar
Mesmo se só vislumbrava a planície verdejante
De um Alentejo alto e de abrasar
Podia baixar as gelosias ao nascer do sol
E acorrer horas mais tarde
Ao convite escaldante do entardecer
Tinha chegado a imaginar um paraíso terminal
Onde os abraços me defendessem do mal
E os beijos espaçados mas sinceros
Ecoassem como pássaros
Nas noites de gestos impropérios
Mas a palavra da verdade era estridente
Não perdoava na sua firmeza prepotente
Percebo que já não terei uma lua de papel
Nem das abelhas o seu glorioso mel
O Verão grita sem cessar
É preciso resistir
Até uma rã coaxar
Nas margens frescas do Outono
Para então recomeçar
Uma nova esperança sem dono

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Contem comigo mais tarde em Salém...

Escondo as palavras
De mim mesmo
Não as quero ditas
Usadas a esmo
Humilhando as verdades
Antigas e evidentes
Bato com os nós dos dedos
Nos momentos fechados
Que vivi impunemente
Escondo-me de mim mesmo
Como de um monstro
Olho discretamente
Para a lista dos gestos permitidos
Decreto que os instrumentos que falam
Sejam enclausurados
E por isso deixo as caixas
Com os seus cadeados
Sem investigar
Os números marcados
As horas circulam
Sem se somar
à minha volta
As ternuras perguntam
Pelos sinais
Os desejos são apenas
Gestos de outro tempo
Que não volta mais
Escondo-me
E comigo vão os demais
Ao longe porém
Ruídos tétricos e maquinais
Não vejo ninguém
Nem quero ficar só
Contem comigo
Mais tarde
Em Salém

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Onde estás fada prometida?

I
Onde estás fada prometida
Que me havias de amadurar
Onde andas que te não vejo
Nestas terras de encantar?
II
Procuro com bravo denodo
Qualquer suspiro me confunde
Tomo a parte pelo todo
Que em cada dia se funde
III
Nas tardes de sono dolente
Penso que vens abraçar
Cai a noite e bem te espero
Até a lua adornar
IV
Onde estás fada sentida
Que não te oiço a cantar
Quer chova quer faça sol
Como te hei-de encontrar?
V
Procurar já procurei
Encontrar tinha pensado
Se não és quem sempre amei
Porque ficas a meu lado?
VI
Pergunto em desespero
A quem possa elucidar
Como pode um amor vero
Assim ficar a penar?
VII
Onde estás fada madrinha
Onde estás desnuda e bela
Se és tua e não és minha
Vou partir num barco à vela
VII
Dizem velhos alfarrábios
Que nas ilhas dos amores
Aportam os velhos sábios
P`ra mitigarem as dores
VIII
Talvez daqui a cem anos
Volte de porto ruim
Mas se isso acontecer
Não tenham pena de mim
IX
Que em abono da verdade
Só não quis a solidão
De viver paredes-meias
Com uma fada sem condão

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Com o dia desvanece...


Com o dia desvanece
A ternura que nos implica
Partilhamos a mesma necessidade
Preferimos não nos tocarmos
Ao mesmo tempo
Desfrutamos o outro
Com toda a liberdade
Mesmo a de não pensarmos em nós
Nesse momento

Escurece quando as ímpias mãos
Iluminam os nossos recantos
Somos pirilampos
Do prazer
Com eles sonhamos
Iluminar a noite toda de prantos
De gozo
Do nosso ser

domingo, 25 de julho de 2010

A vida

A vida
É uma interrupção no silêncio abissal
É um relâmpago estrondoso
Na tempestade eterna
Multiversal
É uma vibração assíncrona
É uma mão, uma pena
A vida é o que se passa
Entre o microscópio e o telescópio
Inventados e esquecidos
Para sanidade dos mortais
A vida dissipa-se
Na inconsciência frequente das partículas
Fusão, confusão, separação
Dito isto
Amo as gotas de água
E bebo sofregamente
A que vem torrencial
Inundar a minha mão

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Eu também


Amo-te
Eu também
Penso em ti
Sempre que suspendo
O meu dia
Eu também
Ou acordo
Na minha noite
Eu também
Sempre que faço amor
Com alguém
Eu também
Como?
Assim já não está bem?
Eu também

domingo, 6 de junho de 2010

Este é o nosso deserto

Este é o nosso deserto
O mergulho imprevisível
Na absoluta consciência
Da morte ímpia e visível
Essa espécie de temor
Porque amanhã não há poesia
Ou porque é o último dia
Para respirar as palavras
De Pessoa ou de Sophia
Uns encontram um ser de amor
E desafiam a eternidade
A alguns basta saberem
Que a morte é só o decreto
Que garante a igualdade
Mas outros evocam a sorte
Nos despojos da existência
À procura do sentido
Do outro ser que lhes falta
Nenhum aviso é ouvido
Nas areias movediças
Do desejo que os confunde
Quando mergulham sofridos
Pensam nus mas vão vestidos
Da ganga da humanidade
Só lhes resta no final
Fugirem para as palavras
E esconderem a verdade