domingo, 11 de abril de 2010

Não escrever?

Não escrever
Por ter a certeza
Que quando escreve
Já mente
Porque se retarda a síncope
Entre o pensamento
E a mão que se movimenta
Lenta, lenta, lenta…

Quando volta atrás para reescrever
Já pouco consta do original momento
Em que subitamente
Uma ou duas fusões de energia inteligível
Lhe tinham ditado uma sequência de palavras
Que agora esquece
Hesita
Lamenta a ideia que adormece
Fica assim numa angústia
De não vivência
De impermanência
Da impossibilidade sofista
De traduzir em tempo real
O que na sua memória acontece
Maravilhoso ou banal

O prazer da escrita
Dissipa-se
Num tom de desdita
De dizer algo
Que já não refere a realidade
Maquilhando a verdade
Que assim
Nunca é dita

sábado, 10 de abril de 2010

A vida contém a morte

A vida contém a morte
Nas suas vibrantes pulsações
Persistente
Habitamos um mundo de ilusões
De uma eterna realidade
Inexistente
Este labirinto
É a minha casa?
Enfrento zeloso
Esta solidão pungente?
Vivo um sonho esquisito
Até chegar à velha mesa
Agora só acredito
No que não vejo
Só na imaginação
Reside esta certeza
Nostalgia do futuro
Onde não vou viver
Regresso
Esperam-me ruínas?
E dessas paredes destroçadas
Conseguirei resgatar emoções?
Pelas frestas derrocadas
Ouvirei ainda os suspiros
Sem tempo
Ou será tarde demais?
E virei assistir
À total inquietação
Da memória insana
Que assim se esgota?
O céu está vermelho
Sinto-me à solta
Nesta história de memória
Que resiste absorta

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Sunset não é o mesmo que Pôr-do-sol


I
Sunset não é o mesmo que Pôr-do-sol
Sunset é depois do sol da vida desaparecer
Sem fantasmas nem furores
Rosto que se desfaz em suores
Num ocaso com muita luz artificial
Sunset é plástico e nunca natural
É Boulevard como num filme
É vida que adormece
Na exaltação do ser
Que se esquece do que foi
E apodrece
Como uma carcaça qualquer
Algures em Terras de Bouro
Sunset comunica-se
Com trejeitos ou palavras de ouro
E a vida agonia-se

II
Pôr-do-sol presencia-se
Saboreia-se gota a gota
E deixa a esperança
Que da paisagem brota
Quando se espera
Que ainda nesta era
Amanheça de novo na nossa rota
E que depois o sol se ponha
Num desaparecer
Sem medo e sem vergonha

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Olhamos o exterior

Olhamos o exterior
Adormecemos
Sono inocente
Sonho indecente
O momento desperta
Irrompe uma fonte
Algo se esfarrapa
Na tua fronte
Em flocos de neve
Que não conhecemos
Senão lá de fora
O amor já aqui esteve
Agora não sabemos
O que dizer
Abrimos os olhos
No silêncio da noite
Abraçamos escolhos
Assustados recitamos
Rupturas e salmos
Às vezes choramos
E as lágrimas só secam
Ao amanhecer
É então que nos olhamos
Não queremos esquecer
Onde regressamos
Quando anoitecer

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Posso amar como Bécaud

Posso amar como Bécaud uma jovem russa
Numa praça vermelha que regurgite de bolcheviques
Retirados entretanto de circulação

Posso cantar como Brel uma indígena muda
De ilhas longínquas e ignorar os seus caciques
Ou os reis bruxos desse Butão

Posso beijar os campos onde os guetos proliferam
E não sentir o odor do sangue
Nem a maldição ou a maldade humana

Posso vender flores ao desbarato
Para que a todos calhe o seu quinhão
De beleza ou da simples ilusão que jana

Posso reiterar esforços e escamotear contrastes
Imaginar que a vida procura o equilíbrio
Quando já sei que este nunca será atingido

Posso dizer o que penso quando não sonho
Recitar as desilusões que a moral me incutiu
Imaginando que o Homem é tão só
Um um ser fruste e fugidio

Posso tudo o que quiser de peito aberto
Mas chegado o momento estou certo
As páginas voarão para um lugar desconhecido
O céu ficará sem cor
E o pensamento e a dor
Perderão para todo o sempre
O sentido

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Palavras que inspiram (a Paz)

São sempre as palavras que inspiram
Menos as que vemos vibrar à nossa frente
Vê-las escritas
É uma forma diferente
Um acto diferido
Em forma de semente
Que talvez nunca seja devolvido
Quedando-se esquecido
Entre os papéis destinados a circular
Nas nossas mesas
De forma estranha e singular
Até que um dia
Emergem como por acaso
E deixamos escapar como um lamento
Esse estranho sentimento
De que passou o prazo
De que já foi há tanto tempo
Nem sabemos já se ainda vivem
As células que as marcaram
Depois passado um momento
Cairão numa estranha câmara lenta
Num cesto de papéis
Num último estado de indiferença
Antes de morrerem de morte natural
Como se fossem a verdade
Ou um misterioso chacal

sábado, 3 de abril de 2010

O silêncio da chuva

O silêncio da chuva
Congela o momento
Sem ti
Não me lembro
De me ter encontrado
Antes de te conhecer
Agora
Mesmo as palavras que magoam
Me faltam ao amanhecer
É então que um sol gélido
Confunde o meu dia
E me insinua
Que te devo esquecer